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jornalismo imprensa e meio ambiente
2011-04-11 | Matsubara

O nissei Paulo Makoto, que marcou época na fotografia do Espírito Santo pelos anos 1960/70/80, ressurgiu em plena tragédia japonesa dentro do contingente dos bafejados pela sorte, pois Osaka, a região em que passou a viver, depois de trocar o Espírito Santo pelo Japão (meados dos anos 90), não foi atingida pelo tsunami. Ele mesmo incumbiu-se de dar a notícia a amigos e filhos, deixados em solo capixaba, além de esperançoso de que também dela tomassem conhecimento algumas de suas paixões amorosas, das inúmeras vividas com mulheres capixabas.
 
O aguçado espírito de aventura que levou Makoto ao Japão, onde se encontra aos 70 anos de idade, empresariando shows, é o mesmo que o trouxe ao Espírito Santo para escrever um importante capítulo na história da fotografia capixaba. Pertence a ele o galardão de ter sido o seu primeiro repórter fotográfico, além de ter formado uma geração de fotojornalistas.
 
Uma despretensiosa foto de um governador (Christiano Dias Lopes Filho, 1967-70), anunciando o seu secretariado na mesma edição com a notícia (em O Diário, jornal já desaparecido, mas que marcou época pelo fornecimento de  jornalistas  para a imprensa local e nacional), mudou o comportamento dos jornais capixabas habituados a  dar as fotos só um dia após a saída da notícia.
 
Antes da entrada de Makoto em O Diário(anos 1960), os jornais não tinham fotógrafos. Para ilustrar suas matérias, valiam-se de profissionais autônomos como Paulo Bonino, Pedro Fonseca e Antônio Buarque. Eles trabalhavam em outros ramos da fotografia, mas atendiam os jornais quando se tratava de reportagens que exigiam ilustrações. Daí essa modesta foto do governador Christiano Dias Lopes do Makoto ter representado uma mudança de atitude dos jornais capixabas com relação à fotografia.
 
Após essa foto, Makoto ganharia notoriedade principalmente pelas suas fotos seguintes, que primavam, sempre, pelos seus movimentos, associadas a uma enorme agilidade e a um destemor em encarar assuntos de risco, muitos dos quais ainda povoam as lembranças dos seus discípulos e de velhos leitores relativamente saudosos da trajetória do jornal O Diário na vida do jornalismo capixaba.
 
(Atuando também no gênero da fotografia, confesso haver também bebido nessa inesgotável fonte de talento chamada Paulo Makoto. Chegamos a ter uma vida profissional em comum. Criamos juntos uma das primeiras agencias de fotojornalismo do País, a Agência VIX).
 
A lista dos que aprenderam a fotografar com ele é relativamente extensa para o mercado capixaba. Ele ensinou fotografia a José Carlos (que virou fotógrafo de A Gazeta), aos seus enteados Romero Mendonça e Nestor Muller (um passou por A Gazeta e o outro lá continua), o mesmo tendo ocorrido com os irmãos Secreta (Joercy Gonçalves) e Secretinha (Josimar Gonçalves) e Carlito Medeiros. A lista se completa com Murilo Rocha, César Ignácio, Enéas Mateus e Jales Farias. Houve também quem fosse além das fronteiras capixabas, como no caso de Josimar Gonçalves, o Secretinha, que inclusive trabalhou em O Globo.
 
Tirando um ou dois, os demais pertenciam a famílias modestas. O ensinamento passava pela Pensão da Maria Muller (foto ao lado), mãe de Romero e Nestor, com quem Makoto viveu 24 anos, mas com vários acidentes de percurso por conta de suas paixões extras, como bom mulherengo. Pode-se dizer que essa pensão foi a academia do Makoto. Contava até com um laboratório e suas aulas se completavam com os alunos acompanhando o trabalho dele em O Diário.
 
Falando propriamente do trabalho dele, há de se destacar aqueles que mexerem com os nervos da população, indo  muito além dos leitores do jornal ao qual servia. A reportagem do abate de cavalos para consumo da população da Grande Vitória provocou uma imediata redução no consumo de carne em  Vitória e uma atitude de hostilidade da parte dos marchands, seguida de ameaças de morte.
 
No célebre atentado ao advogado Mares Guia, ele conseguiu penetrar no centro cirúrgico onde a vítima estava sendo operada. Vestiu-se de enfermeiro e fez a foto. Ele tinha a técnica de fotografar por medição de campo - sem olhar pelo visor. Técnica empregada também em outro caso semelhante ao de Mares Guia, o do piloto de avião Luiz Beleza. Vestido de operário, ele conseguiu penetrar no canteiro de obras da CST para documentar as condições de trabalho insalubres dos operários.
 
Costumava ir além da fotografia. Escrevia reportagem e foi importante na cobertura do Esquadrão da Morte (período do governo de Christiano Dias Lopes Filho). O seu pioneirismo chegou ao meio ambiente. Para mostrar a poluição da Grande Vitória, até então ignorada pela população, invadiu enfermarias do Hospital Infantil e penetrou nas áreas de Tubarão. Essa matéria, como a do Esquadrão da Morte, figura entre os melhores trabalhos da história de O Diário.
 
Mas também lhe é atribuída a maior cascata (jargão jornalístico para definir notícia falsa) conhecida no jornalismo capixaba – o desaparecimento de crianças –, uma série que havia feito na companhia do repórter José Barreto de Mendonça, naquela época escrivão de polícia e repórter policial de O Diário e hoje delegado aposentado.  Não havia uma edição em que O Diário não estampasse alguém reclamando de uma criança desaparecida ou falando de crianças sendo seguidas para serem raptadas.
 
Eles sustentaram o noticiário por quase três meses e fizeram com que se generalizasse um imenso pânico junto à população, a ponto de levar a uma intervenção da guarnição do Exercito no Estado. O comando do 38º BC deslocou contingentes de soldados para procurar a casa em que Makoto e Barreto diziam que os seqüestradores aprisionavam os menores. Àquela altura, a conta dos desaparecidos deles já passava dos 50.
 
Os militares os colocaram à frente de um pelotão, atravessando capoeiras e matas numa inóspita localidade de Carapina em busca do local onde diziam que se encontravam aprisionados os menores sequestrados. Acharam uma casa, dessas feitas às pressas, de pau a pique  – mas sem ninguém dentro. Os dois foram levados em seguida para o quartel, em Vila Velha, onde o autor dessa reportagem, na qualidade de chefe deles, já se encontrava detido por conta desse trabalho de reportagem.
 
Além do risco que esse tipo de noticiário representava para a população, o momento vivido pelo País era perigoso: as garantias individuais estavam suspensas com a edição do  AI-5 e O Diário era ainda um jornal sobejamente conhecido pelos esquerdistas que nele trabalhavam. Iam de Rubinho Gomes a Jorge Luiz de Souza, passando por todos nós, habitués da Superintendência da Polícia Federal e do Quartel de Piratininga, do 38º BI, em Vila Velha.
 
Deu-me um calafrio quando vi os dois chegando ao interior do quartel e sendo imediatamente levados à sala de interrogatórios. Vi que a barra havia pesado pelos oficiais que passaram para interrogá-los. Em lugar de temer por eles, passei a temer pela sobrevivência do jornal. Ficou pior ainda quando me assopraram que não haviam encontrado uma viva alma no tal esconderijo. Até então eu não havia sabido do resultado da expedição militar em busca das tais crianças seqüestradas.
 
Foram três horas de nervos à flor da pele. Pois, no tempo aguardando o fim do interrogatório, um dos oficiais chegou-se a mim para uma ameaça velada. “Vai sobrar pra você”, me disse. Ao fim do interrogatório, vi Makoto e Barreto saírem de semblantes fechados. Um major que comandou o interrogatório dirigiu-se a mim dizendo que estava convencido da cascata, mas não tinha como prová-la, pois Makoto, munido de um grosso caderno, com caso por caso da série de reportagens, tinha os nomes dos sequestrados e das testemunhas contando as circunstâncias de cada caso. Meu alivio, no entanto, foi passageiro diante da ordem dele de que o assunto estava proibido para ser noticiado. E o major foi curto e ameaçador, como das vezes anteriores em que fui convocado para explicar outras notícias: “Esse jornalzinho de comunistas pode ser fechado.”
 
À la Robert Capa (um dos mais importantes fotógrafos do mundo, especialista em guerra e que sempre disse ser  necessário estar bem próximo do objeto fotografado para que a foto fosse boa), Makoto assim também o fazia com as suas fotos. Embora fosse imprescindível ao jornal O Diário, ele não sobreviveu à mudança de donos. Durou enquanto os proprietários foram Fernando Jacques e Edgard dos Anjos.
 
Logo estaria fora. E o conservadorismo noticioso dos demais jornais no Estado – A Gazeta e A Tribuna – não o comportava. Foi quando fizemos juntos a Agência VIX. Foi um período razoável de trabalho no que se referia principalmente ao atendimento dos jornais e revistas nacionais. Se por um lado era compensador em termos de ganhos, por outro lado eram sempre pedidos para cobrir noticiais. Foram poucas as reportagens solicitadas. Ele começou a ficar incomodado. Sobretudo quando via suas pautas de reportagem serem rejeitadas.
 
Ele ainda passou pelas revistas Manchete e Fatos & Fotos como correspondente no Espírito Santo. E passou a reclamar das condições atmosféricas. Dizia que as cores estavam sendo violentadas pela poluição que tomava conta da Grande Vitória. “Quando a gente saí para fotografar o azul, não é mais azul, o amarelo está desbotado.” Danava a teorizar. Como costumava dizer outra celebridade da fotografia, Cartier Bresson, começou a lhe faltarem as condições básicas para prosseguir fotografando “o alinhamento do coração da mente e do olhar.”
 
Afastou-se da fotografia, embora continuasse no jornalismo quando aceitou o convite do presidente da Assembléia Legislativa (período 1982-83) para ser o coordenador de Comunicação da Assembléia. Depois mudou de profissão. Virou seresteiro e criou o Bailão do Japonês, em Jardim América, onde conheceu sua segunda mulher, com quem tem uma filha. Com o fim desse romance, ele resolveu ir embora para o Japão para encontrar-se com as raízes de sua família. Está por lá há sete anos, mas com a cabeça no Espírito Santo, onde ajudou a criar Romero Mendonça e Nestor Miller e gostaria de viver com a filha do segundo casamento, Milena.
 
No Brasil também se encontra a sua única irmã. Ela mora em São Paulo. O início de carreira do Makoto foi em São Paulo. Teve como mestre um dos pioneiros da fotografia no Brasil, José Pinto Filho, que o tratou como um filho, de quem costuma dizer ter herdado a prática de unir o afeto à fotografia como conduziu a relação com os seus alunos. No  Espírito Santo estão hoje os seus entes mais queridos e que o fazem acordar todos os dias pensando neles. Onde viveu – segundo nos disse – os momentos mais lindos de sua vida e onde também produziu o melhor de sua obra fotográfica. Considera-se em dívida com os seus filhos Romero, Nestor e Melina. E gostaria de pagá-la enquanto ainda existe tempo, já que acabou de entrar na casa dos 70 anos.

De minha parte, que já passei da casa dos 70, gostaria muito de voltar a festejar uma bela foto do Makoto, como festejei muitas no passado e tantas vezes me inspiraram, pois ele não refreava os sentimentos quando fotografava. Por fim, um desejo: o de ter a companhia dele  para cruzar a linha de chegada.

(Por Rogerio Medeiros, Século Diário, 09/04/2011)


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