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2010-11-09 | Tatianaf

Só o manejo correto de pastagens em áreas degradadas no Brasil poderia evitar a emissão de 80 milhões de toneladas de CO2 equivalente ao ano. O valor é maior do que as emissões industriais brasileiras que, de acordo com o último inventário, feito em 2005, foram de 78 milhões de toneladas de CO2 equivalente.

Os números foram calculados pelo Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), parceiro do Centro de Estudos em Sustentabilidade Fundação Getúlio Vargas (GVCes) em um relatório lançado nesta terça-feira sobre as emissões do setor agrícola.

“A agropecuária é o segundo setor que mais emite no Brasil, sendo responsável por 19% das emissões brasileiras, mas isso pode mudar com a aplicação de medidas simples de manejo. É também o setor mais vulnerável às mudanças climáticas, mas, por outro lado, é onde a adaptação a elas terá menor custo”, resume a coordenadora do Programa de Sustentabilidade Global do GVCes, Bárbara Oliveira. De acordo com a Embrapa, serão necessários recursos na casa dos R$ 56 bilhões para adotar as ações de mitigação apresentadas pelo governo brasileiro no campo agropecuário até 2020. Bárbara, entretanto, ressalta que se trata de um setor tradicional, com certa dificuldade de responder às inovações.

“Isso era verdade há 20 anos. Hoje, o perfil do setor mudou. Os produtores sabem que não podem ser refratários a novas tecnologias, senão vão ficar para trás. De uma maneira geral, nós entendemos que o que hoje é problema pode ser oportunidade se passarmos de atividade emissora para atividade que sequestra carbono. A expectativa é gerar renda evitando emissões”, afirma Assuero Doca Veronez, presidente da Comissão Nacional de Meio Ambiente da Confederação Nacional da Agricultura e Vice-Presidente da entidade.

Soluções
“O manejo de pastagens, o plantio direto, sem queimada ou formas de limpeza do solo que impliquem em altas emissões, e o uso dos resíduos agrícolas para a geração de energia são as soluções com mais potencial para reduzir emissões do setor”, afirma Laura Antoniazzi, agrônoma e pesquisadora do Icone.

De acordo com ela, se todo o bagaço de cana produzido no país fosse convertido em fonte de geração de energia, teríamos potencial de gerar 126 mil gigawatts por hora até 2020. “Isso significaria evitar a emissão de 69 milhões de toneladas de CO2 equivalente se substituísse parte da energia gerada por termelétricas movidas a diesel”, diz Laura.

Praticamente todas as soluções apontadas por especialistas dependem da integração dos diversos órgãos governamentais responsáveis pela política agrícola, ambiental e energética do país com os atores do setor (que vão desde pequenos produtores até grandes conglomerados processadores de alimentos) – e também do aumento da escala das políticas públicas voltadas para a redução de emissões no campo.

“O arcabouço institucional exige afinação para que tenhamos resultados palpáveis até 2020”, diz Bárbara, do GVCes.

Algumas gigantes do setor estão se adiantando e se preparam para continuar rentáveis numa economia de baixo carbono. É o caso da Monsanto, maior produtora mundial de organismos geneticamente modificados (OGMs), os chamados transgênicos.

“Nós nos colocamos o compromisso de possibilitar a redução de 1/3 das emissões relativas ao uso de água, energia e solo no plantio de soja, algodão e milho até 2030”, afirma Gabriela Burian, gerente de sustentabilidade da Monsanto. As ferramentas da empresa incluem os polêmicos transgênicos, que já cobrem 20 milhões de hectares em lavouras no mundo inteiro. “Os transgênicos são parte da solução, pois minimizam o uso de pesticidas e herbicidas  e, assim, poupam os solos e a água”, acredita Gabriela, afirmando que a empresa aposta na tecnologia e nas parcerias com os fornecedores.

“No início de 2012 deve chegar ao mercado americano o milho tolerante a stress hídrico, ou seja, uma qualidade de semente que precisa de menos água. E estamos capacitando nossos fornecedores, inclusive os da área de logística, que inclui o transporte da produção, responsável por boa parte de nossas emissões”.

(Por Karina Ninni, Estadão, 08/11/2010)


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