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anfíbios conservação da biodiversidade biopirataria
2009-10-05

A maior diversidade de anfíbios registrada para uma localidade no mundo encontra-se na Serra do Moa, região do Alto Juruá, ponto mais ocidental do país, na fronteira com o Peru. O estudo dos anfíbios (rãs, pererecas e sapos) e dos répteis (lagartos, cobras, jacarés e tartarugas) chama-se herpetologia.

Paulo Sérgio Bernarde, 37 anos, é um dos coordenadores do Laboratório de Herpetologia da Universidade Federal do Acre (Ufac) no município de Cruzeiro do Sul. Bernarde, que nasceu em Guararapes (SP), mora no Acre há quase três anos. Orienta alunos dos cursos de Ciências Biológicas e do Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais da Ufac em Rio Branco.

O paulista faz parte de uma equipe que se embrenha nas densas florestas do Vale do Juruá, principalmente durante a noite, em busca de animais que a maioria das pessoas prefere evitar.  E sustenta que as cobras mais salvam vidas do que matam anualmente no país.

Quando contempla os anfíbios, o pesquisador divisa através da diversidade de cores dos animais um potencial imenso de medicamentos que podem ser produzidos através do veneno deles. Mas por que Deus fez as cobras?

- Geralmente eu digo que jamais se deve questionar a obra do Criador.  Tudo na natureza tem sua importância.  Poucos sabem, mas do veneno da jararaca (Bothrops jararaca) foi isolado o remédio Captopril, que é um dos anti-hipertensivos mais usados pela população desde a década de 60 - responde.

Doutor em zoologia pela Universidade Estadual Paulista, o herpetologista Paulo Sérgio Bernarde conversou com o Blog da Amazônia.  A seguir, os melhores trechos da entrevista:

Blog da Amazônia - Para que servem sapos, rãs, cobras e lagartos?
Paulo Sério Bernarde -
Desempenham importantes funções na natureza, sendo predadores de vários grupos animais.  Por exemplo, os sapos, rãs, pererecas e lagartos se alimentam de vários insetos e aranhas.  São toneladas de insetos predados todo ano.  Imagine como seria a quantidade de carapanãs e outros insetos sem esses predadores.  Muitas cobras predam ratos, animais associados a transmissão de algumas doenças (hantavirose, leptospirose) e por vezes pragas de lavouras ou de produtos agrícolas armazenados.  Anfíbios e répteis por suas vezes também servem de alimento para vários animais como aves e mamíferos.

Por que todos temos tanto pavor de morrer picado por uma cobra?
Bernarde -
É coisa que aprendemos logo desde crianças.  Se pensarmos no número de pessoas que morrem anualmente picadas de cobras no Brasil (cerca de 200 vítimas) e compararmos com os números de pessoas mortas em acidentes de trânsito (ultrapassa os 25 mil) e assassinadas (cerca de 40 mil), deveríamos temer mais os automóveis e os da nossa própria espécie.  E erramos ao compararmos algumas pessoas de má índole com uma cobra, porque estas últimas não fazem emboscadas e só picam por defesa, nada planejado.  Esses animais precisam economizar o veneno para caçarem os ratos dos quais se alimentam.

Mas por que Deus fez a cobra?
Bernarde -
Geralmente eu digo que jamais se deve questionar a obra do Criador.  Tudo na natureza tem sua importância.  Poucos sabem, mas do veneno da jararaca (Bothrops jararaca) foi isolado o remédio Captopril, que é um dos anti-hipertensivos mais usados pela população desde a década de 60.  Portanto, entre os leitores dessa entrevista, alguém deve fazer uso desse medicamento ou ter algum parente que faz.  E existem mais ainda medicamentos a serem descobertos a partir do veneno desses animais.  Os números indicam que as cobras mais salvam vidas do que matam anualmente.

O que enxerga quando contempla os anfíbios?
Bernarde -
Enxergo através da diversidade de cores desses animais um potencial imenso de medicamentos que podem ser produzidos através do veneno deles.  Antes dos cientistas descobrirem a imensa riqueza desse potencial farmacológico para produção de novos medicamentos para a humanidade, nossos indígenas já faziam uso dos benefícios do veneno de algumas espécies.

Você se refere ao uso do kambô?
Bernarde -
Sim.  O anfíbio kambô (Phyllomedusa bicolor) há séculos é capturado e tem seu veneno retirado pelos katukina, que realizam a aplicação da famosa vacina-do-sapo, que foi difundida também entre os seringueiros e hoje já chegou até os grandes centros urbanos de nosso país.

Com funciona?
Bernarde -
As espécies de Phylllomedusa secretam pela pele substâncias ricas em peptídeos com propriedades medicinais.  Estão sendo estudadas como antibióticos e também com resultados positivos que demonstram a possibilidade de, no futuro, serem descobertos medicamentos para combater isquemia cerebral, problemas circulatórios, câncer e Aids.

E aí surgem também os riscos de biopiratia e de agressão à saude.
Bernarde -
É verdade.  Essa riqueza de possibilidades do uso do veneno desses anfíbios denota o risco de biopirataria e de roubo do conhecimento tradicional dos povos indígenas.  Atividades ilegais como o contrabando do veneno do kambô e sua aplicação nos grandes centro-urbanos já vem ocorrendo.  A comercialização de produtos oriundos da fauna silvestre é crime previsto por Lei e a Anvisa também proibiu a propaganda das aplicações da vacina pela falta de comprovação científica que garanta qualidade, segurança e eficácia dessa prática de medicina alternativa.

Qual a riqueza da região do Alto Juruá?
Bernarde -
Você sabe que é uma região conhecida por apresentar uma das maiores biodiversidade do Planeta, destacando-se a rica fauna de borboletas, anfíbios, primatas, dentre outros seres vivos.  Na Serra do Divisor, também conhecida como Serra do Moa, foram desenvolvidas pesquisas pelo doutor acreano Moisés Barbosa de Souza, da Universidade Federal do Acre, que registrou em seu doutorado 126 espécies de anfíbios.  Os resultados dos estudos do professor Moisés revelaram que a Serra do Divisor, além das lindas paisagens ou praticamente um cartão postal do ecoturismo das belezas do Alto Juruá, apresenta a maior diversidade de anfíbios registrada para uma localidade no mundo.  Um dos frutos do trabalho do professor Moisés é um livro que ele publicou recentemente, um guia fotográfico para quem quiser conhecer essa riqueza.

Como atua no Vale do Juruá a equipe de herpetologia da Universidade da Floresta?
Bernarde -
Nossa equipe, que inclui outro coordenador, o doutor Reginaldo Machado, desenvolve estudos sobre a taxonomia (descrição de novas espécies), biologia reprodutiva, ecologia e conservação de anfíbios e répteis.  Dentre as pesquisas, destaca-se um estudo realizado na Reserva Extrativista do Riozinho da Liberdade, onde foram registradas em uma pequena área, de cerca de 100 hectares, dentro dessa unidade de conservação, 81 espécies de anfíbios e 79 de répteis.  Além de novos registros para o estado do Acre e para o Brasil, também encontramos uma nova espécie de sapinho dendrobatídeo que se encontra em descrição por nós. 

Os sapinhos dendrobatídeos são conhecidos pelo magnífico colorido e também por apresentarem uma pele rica em toxinas, das quais de algumas espécies já foram isolados anestésicos mais eficazes do que a morfina.  Uma dissertação de mestrado foi desenvolvida na Floresta do Liberdade sobre a ecologia de serpentes por Luiz Carlos Turci.

Existem mais estudos com essa relevância na região?
Bernarde -
No Baixo Rio Moa, foi realizado o inventariamento de espécies de anfíbios e répteis e estudos sobre a ecologia dos mesmos.  Durante este projeto, um estudo foi desenvolvido sobre a atividade, uso do habitat e comportamento de duas cobras peçonhentas, a surucucu (Bothrops atrox) e a papagaia (Bothriopsis bilineatus).  Essas cobras são responsáveis pela maior parte dos acidentes ofídicos na região e este estudo pode ser base para interpretação dos encontros de pessoas e estes animais, a partir das informações obtidas sobre a preferência e uso de hábitat por essas espécies.  Duas dissertações de mestrado estão sendo desenvolvidas na Floresta do Rio Moa, uma sobre ecologia de anfíbios, por Daniele Bazzo Miranda, e outra, de lagartos, por Saymon de Albuquerque.

(Por Altino Machado, Blog da Amazônia / Amazonia.org.br, 02/10/2009)


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