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crescimento econômico sustentabilidade e capitalismo consumismo
2009-06-16

Com uma clara visão sobre os desafios que teremos pela frente em relação à sustentabilidade do planeta e o atual sistema econômico, o professor e consultor Paulo Branco vê que a principal limitação do cenário atual “é o fato de estarmos regidos pela lógica dominante da possibilidade de crescimento infinito”. Na entrevista que segue, concedida por telefone para a IHU On-Line, ele identifica que “toda a nossa economia, todo nosso modelo mental e, consequentemente, todas as nossas criações no plano social e econômico se baseiam em uma possibilidade que não existe, que é o crescimento reger todo o nosso caminhar. Temos um limite na medida em que a economia hoje é centrada na ideia de crescimento”.

Paulo percebe, na proposição da economia ecológica ou da ecoeconomia, “um caminho central para se discutir um modelo pós-crise”. E por quê? “Porque ela parte de premissas corretas”, responde ele. Para o professor, o que deveria definir os limites de atuação do subsistema econômico é a capacidade de suporte da biosfera no que se refere a prover recursos e absorver os dejetos. “É algo muito óbvio e claro. Difícil é imaginar porque essa visão não se incorporou efetivamente ao nosso modo tradicional de ‘gerir a casa’”. E conclui: “A premissa de crescimento precisa ser rompida. Ela não responde a uma civilização que habita um planeta que é um só e que possui uma capacidade de suporte”.

Sócio-diretor da Ekobé Consultoria em Sustentabilidade, Paulo Durval Branco é professor da Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade (Escas), de São Paulo. Possui graduação e mestrado em Administração pela PUC-Rio.

IHUnisinos – Neste momento de crise global da economia capitalista, quais são as possibilidades e os limites de pensar uma economia que leve em conta a sustentabilidade da terra?
Paulo Durval Branco –
Essa pergunta abre o debate de uma maneira interessante, porque já põe em foco aquela que, no meu ponto de vista, é a principal limitação. Na medida em que essa limitação seja superada, começamos a identificar eventuais possibilidades. Vejo que a principal limitação é o fato de estarmos regidos pela lógica dominante da possibilidade de crescimento infinito. Toda a nossa economia, todo nosso modelo mental e, consequentemente, todas as nossas criações no plano social e econômico se baseiam em uma possibilidade que não existe, que é a de o crescimento reger todo o nosso caminhar. Temos um limite na medida em que a economia hoje é centrada na ideia de crescimento. E essa ideia é contrária à noção de que existe uma capacidade de suporte do planeta.

Portanto, temos nisso o grande limite, de pensar esta economia levando em conta a sustentabilidade da Terra. Para que isso possa ocorrer, o que seria correto, defensável, desejado, é que as metas, os desafios do desenvolvimento – e não do crescimento – fossem estabelecidas a partir da definição clara da capacidade de suporte de um dado ecossistema, ou seja, pensando no que esse ecossistema pode nos oferecer em termos de recursos naturais na falta de energia, e qual a sua capacidade de absorver os dejetos, resíduos, rejeitos, de um processo econômico. Esses limites definiriam as nossas metas e objetivos de produção, comercialização e consumo.

Que relação o senhor estabelece entre a velocidade da expansão da economia e a capacidade de regeneração dos recursos naturais? São compatíveis?
Branco –
Da maneira como hoje nosso modelo de produção e consumo está estabelecido e operando, essa velocidade é totalmente incompatível. Temos, hoje, indicadores muito claros, como é caso da pegada ecológica, apontando isso. Ela mostra que já ultrapassamos em cerca de 40% a capacidade deste planeta em nos prover recursos e absorver nossos resíduos em termos de processo de produção e consumo. Nitidamente, hoje, a velocidade de expansão da economia – e aqui estamos falando de uma economia centrada no crescimento, que considera recursos naturais como infinitos – é incompatível com a capacidade de regeneração. Para alguns ecossistemas, já falamos em adaptação e não mais na possibilidade de recuperação dos mesmos.

Quais os maiores problemas que envolvem a questão de que a economia clássica sempre ignorou que a Terra é finita?
Branco –
Aqui existe uma questão mais profunda, que é anterior às discussões sobre economia ou qualquer outra ciência criada nos tempos modernos. Essa questão nos remete a uma discussão que tem raízes na Filosofia, que nos remonta a Descartes, a Francis Bacon, na medida em que esses pensadores definiram nosso atual modelo mental, nossa forma de ver o mundo, que é uma forma fragmentada, reducionista. E essa fragmentação também nos leva, enquanto seres humanos, a nos percebermos como seres fragmentados. Não nos percebemos como um ser integral, no sentido de ter as várias dimensões interconectadas: dimensão mental, física, espiritual e emocional. Expressamos essa mesma fragmentação no distanciamento em relação a tudo o que está a nossa volta: aos outros e ao planeta.

Na medida em que nos vemos fragmentados, não como parte da teia da vida, nos sentimos à vontade – e essa é uma consequência indesejada – de usar, explorar, utilizar, considerando que esses recursos são infinitos e estão aí a nosso dispor, como se não fizessem parte da mesma teia da vida a qual nós pertencemos. O fato de a economia ignorar a Terra, ou tê-la como recurso infinito, vem dessa fragmentação que sempre caracterizou nosso ser no mundo e a nossa relação com o mundo a nossa volta. O fato de a economia estar separada da ecologia é mais uma das expressões dessa fragmentação.

Quais as principais implicações para a economia da urgência dos problemas ambientais?
Branco –
Nós já estamos lidando com algumas implicações reais, concretas, nesse sentido. Por exemplo, as seguradoras estão muito preocupadas por conta dos sinistros causados por desequilíbrios ambientais; a própria questão das mudanças climáticas, o efeito estufa, afetando a agricultura, o ciclo de crescimento de plantas, portanto, alterado a safra. Temos outras implicações não tão visíveis, mas já muito sentidas em alguns setores, onde, por exemplo, as matérias-primas vão ficando cada vez mais escassas, portanto, mais caras. Isso torna a temática ambiental cada vez mais presente na agenda econômica.

Infelizmente, para a maior parte dos agentes econômicos, essa entrada na agenda se dá pelos riscos, pelos problemas, pelas dificuldades, e não pelo lado mais prazeroso e inspirador, que é o lado da inovação, de olhar a sustentabilidade a partir da perspectiva de inovação das possibilidades e não de restrições e deveres. Isso seria algo muito mais interessante, que poucos atores, poucas organizações, estão tendo a capacidade de perceber dessa forma.

O que podemos entender pelo conceito de ecoeconomia ou de economia ecológica? Ele pode ser pensando como alternativa para o momento em que vivemos?
Branco –
Acredito que sim. Na verdade, hoje, vejo nessa proposição da economia ecológica ou da ecoeconomia um caminho central para se discutir um modelo pós-crise – e aí não estamos falando exclusivamente dessa atual crise, que começou com as questões do crédito imobiliário nos Estados Unidos; na verdade, estamos falando de uma crise muito mais ampla. Essa é apenas uma das expressões de uma crise do padrão civilizatório, que se expressa de várias maneiras.

E por que a economia ecológica seria um caminho? Porque ela parte de premissas corretas. Uma delas é a impossibilidade do crescimento como um retorno exclusivo do processo econômico. Então, a ecoeconomia supõe o sistema econômico como parte de um sistema maior, que é a biosfera. A economia seria um subsistema, regido pelas leis de um sistema mais amplo, que seria a biosfera. Faz sentido pensarmos o que falei no início desta entrevista: o que deveria definir os limites de atuação do subsistema econômico? A capacidade de suporte desta biosfera no que se refere a prover recursos e absorver os dejetos. É algo muito óbvio e claro. Difícil é imaginar por que essa visão não se incorporou efetivamente ao nosso modo tradicional de “gerir a casa”.

No entanto, é ainda complicado imaginar essa proposta se efetivando na prática, porque, por mais que identificamos a sua urgência e a sua necessidade, a grande maioria, inclusive dos governos, ainda tem dificuldade para perceber isso…
Branco –
Sem dúvida. No entanto, algumas coisas apontam para a possibilidade. Um exemplo que eu quero trazer aqui é um estudo recente, que foi publicado por uma comissão do governo britânico, chamada Sustainable Development Commission, que assessora o governo britânico, o Gordon Brown, em questões ligadas ao desenvolvimento sustentável. Esse estudo é muito interessante, pois discute exatamente os limites do crescimento e as possibilidades de prosperidade sem crescimento. Esse é o caminho, mas é difícil. Para que ele se torne o senso comum, é preciso muitas coisas acontecerem. Mas, ao que parece, os indutores para essa mudança estão aí colocados. A sociedade contemporânea precisará ser hábil para fazer as mudanças necessárias. Implicações mais profundas da mudança da qual falamos têm a ver também com o comportamento individual. Isso exige certamente uma sociedade mais centrada no ser do que no ter.

Quais as contradições entre a sustentabilidade do planeta e o PIB? Quais as principais criticas feitas a ele nesse sentido?
Branco –
Hoje, o PIB, para muitas organizações e um número crescente de estudiosos, vem sendo bastante criticado do ponto de vista das suas limitações para o atual momento da nossa atual sociedade. A primeira delas está ligada ao fato de que o PIB não leva em conta as externalidades do processo produtivo. O PIB, como uma medida de riqueza, está na contramão de todas as nossas discussões e de nossa busca por desenvolvimento sustentável. Se pensarmos hoje na construção de uma hidrelétrica, as contas nacionais aumentarão em função das obras, dos gastos com materiais, da locação de mão-de-obra etc.

No entanto, não irá ocorrer nenhuma subtração nas contas nacionais, no PIB, por conta de degradação ambiental causada, de eventual degradação das condições sociais da população próxima à construção dessa hidrelétrica, com fenômenos como exploração sexual de crianças e adolescentes, ou eventual trabalho infantil em cadeia produtiva. São coisas que sabemos que ocorrem, mas não são computadas. A ausência de externalidades nas contas é uma deficiência enorme. Podemos ter um país com um PIB elevado; entretanto, essa riqueza está sendo gerada a custo de enormes externalidades socioambientais.

Outra limitação é o fato do PIB não levar em conta capitais sociais relacionados, por exemplo, ao trabalho voluntário. Hoje, nós temos uma riqueza enorme do ponto de vista do capital social sendo gerado em vários países do mundo e isso não está refletido nesta riqueza. Por conta dessas limitações, outras alternativas estão sendo buscadas, como as discussões mais recentes da Felicidade Interna Bruta (FIB), na experiência do Butão. Essa recente Comissão Stiglitz, que foi iniciada por uma liderança do presidente da França, Nicolas Sarkozy, tem Joseph Stiglitz como líder desse grupo e que está desenvolvendo toda uma análise que não só realiza as críticas necessárias ao PIB como se propõe a apresentar alternativas no que se refere a novas medidas de riqueza.

O aprimoramento do PIB e a sua superação é uma discussão fundamental, porque, em função desta medida de riqueza ter se estabelecido como uma medida dominante, nós vivemos sob a ditadura do PIB. Governos nacionais estabelecem metas de crescimento, medidas pelo PIB, que possui todas essas deficiências que falamos; no plano da microeconomia, as empresas também perseguem medidas de progresso que estão pautadas na mesma lógica que orienta o PIB. Então, temos uma cadeia de um mau indicador sendo alimentada. Chegamos a uma cadeia de indicadores deficientes, que não medem adequadamente riqueza. E, por trás disso, temos um problema central: indicadores induzem comportamentos. Se não tivermos um bom indicador, certamente estaremos induzindo a um mau comportamento.

O senhor acredita que a economia, como é constituida hoje, teria condições de caminhar para ser cada vez mais parecida com os processos naturais?
Branco –
Vejo isso como uma impossibilidade, relacionada às premissas que falávamos inicialmente. A premissa de crescimento precisa ser rompida. Ela não responde a uma civilização que habita um planeta que é um só e que possui uma capacidade de suporte. Essa é uma impossibilidade.

O que faria parte de um novo modelo que desse respostas a questões como geração de empregos, desenvolvimento com qualidade e até mesmo uma desmaterialização do sistema?
Branco –
Vejo a proposta de Herman Daly, de economia do estado estacionário como uma alternativa e ela vai fazendo cada vez mais sentido. É um caminho, um modelo que responde a esses desafios. A questão da geração de empregos traz para o debate um outro tema, que é o tamanho da população. Nesse sentido, será muito pouco provável alcançar pleno emprego. Seja qual for o modelo que se estabeleça, o pleno emprego parece ser uma impossibilidade. No entanto, teremos empregos de melhor qualidade, ao que tudo indica. Teremos necessariamente, como você menciona na pergunta, a necessidade de desmaterializar a produção. Estamos falando não só de desmaterialização relativa, mas também a desmaterialização absoluta: realmente fazer menos com menos. Não basta mais fazer mais com menos. Isso implica em trocar quantidade por qualidade, em rever o estilo de vida, em propor menos horas de trabalho para que outros tenham mais possibilidade de emprego. Também implica em distribuição de renda, portanto, em uma macroeconomia mais favorável ao desenvolvimento sustentável. Esse seria o primeiro aspecto a ser pensado num novo modelo.

Existem mais duas dimensões-chave nessa questão. A segunda estaria ligada a criarmos nesse novo modelo oportunidades para uma vida que tenha significado efetivamente. Estamos falando, aqui, de pessoas vivendo em comunidades com um alto capital social, ou seja, comunidades, associações, onde a democracia efetivamente é exercida, as pessoas se reconheçam representadas e tenham possibilidade e estímulo à interação. A criação de oportunidades reais, para uma vida com significado, é uma outra dimensão necessária neste novo modelo. E um terceiro aspecto diz respeito a reconhecermos e respeitarmos os limites ecológicos. Não consigo pensar em um novo modelo que não esteja submetido, de fato, aos limites da capacidade de suporte do planeta. A partir disso é que devem ser montados os processo de produção, ou seja, a economia passa então a ser regida pelo ecossistema, pela biosfera.

Como seria uma proposta ideal de consumo ético, na sua opinião?
Branco –
Quando falamos de consumo ético, falamos de consumo consciente, que seja a expressão de cidadania, de valores pessoais, um consumo que leve em conta a cadeia produtiva e os impactos socioambientais da produção. Hoje, já temos exemplos interessantes nesse sentido, como o movimento do fair trade, que se baseia não só na qualidade socioambiental do produto ou serviço, mas também supõe a melhor distribuição de renda na cadeia produtiva. Ele busca romper a lógica de que atravessadores ficam com a maior parte da riqueza gerada nas transações comerciais, em detrimento do produtor. Essa seria uma proposta ideal de consumo ético.

(IHUnisinos / EcoDebate, 03/06/2009)


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