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impactos mudança climática mudança de hábitos dos animais
2009-01-30

O aquecimento global bate à porta do planeta e, enquanto países menos ricos em biodiversidade, como Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, fazem o tema de casa com pesquisas e projeções frente à possível disparada dos termômetros, o Brasil mantém a passos de formiga a elaboração de seu plano nacional de mudanças do clima e investe pouco em estudos preventivos. Não fossem raras investigações, por exemplo, não saberíamos que a bela garça-azul (Egretta caerulea) resolveu morar em locais onde as temperaturas subiram no Rio Grande do Sul.

A espécie era restrita a regiões próximas ao Atlântico e ao Pacífico e algumas áreas úmidas (charcos, banhados) do sul dos Estados Unidos ao norte da fronteira argentina, habitando também estuários e se reproduzindo em manguezais até porções do litoral sudeste brasileiro. Agora, está vivendo onde a Lagoa dos Patos encontra o mar em Rio Grande, no litoral sul gaúcho. No estado, a espécie era registrada como vagante desde 1983. Naquele município, no entanto, a presença de indivíduos adultos e jovens residentes é recente. Um ciclo completo de reprodução, com filhotes abandonando seus ninhos, já foi registrado.

Coincidência ou não, naquele local a temperatura média da década de 1990 e da primeira metade dos anos 2000 está até 2,8ºC acima da observada na década de 1900. Os dados são do Programa Nacional de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD/CNPq). As previsões mais pessimistas do grupo climático das Nações Unidas são de que as temperaturas possam subir até 4ºC até 2100. “O aquecimento climático regional pode ter contribuído para isso (permitir a presença da espécie)”, pondera Dimas Gianuca, biólogo ligado à descoberta, dividida com pesquisadores da Universidade Federal de Rio Grande (Furg), Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental.

Bolsista em Oceanografia Biológica pela Furg, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Gianuca avalia que a destruição de mangues e marismas (manguezal rico em gramíneas, comum em regiões frias) em Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo também pode ter forçado o deslocamento da garça-azul para aquelas regiões, ricas em crustáceos e pequenos peixes, alimentos preferidos pela espécie. Na ilha de Florianópolis, por exemplo, 43% desses ambientes foram destruídos, ao longo dos últimos 67 anos.

“Os fatores da expansão ainda não estão todos identificados, mas a perda de habitat pode levar a espécie a buscar novas áreas adequadas para sua ocorrência. E o aumento constatado da temperatura pode contribuir para que a região do estuário da Lagoa dos Patos seja uma área favorável para a garça-azul”, comentou.

Grande parte das observações da garça ocorreu nos 43 hectares da chamada Ilha da Pólvora, coberta de marismas e a menos de quinhentos metros do centro de Rio Grande (clique e confira). O local foi área militar por mais de 150 anos e hoje é destinado à preservação, pesquisas e educação ambiental. O acesso público é controlado. Na área também há um museu mantido pela Furg.

Movimentação alada global
Publicada na penúltima edição do Pan-American Journal of Aquatic Sciences (Jornal Pan-Americano de Ciências Aquáticas), no fim de 2008, a pesquisa feita em solo gaúcho lembra que o socó-caranguejeiro (Nyctanassa violacea) expandiu seu território até onde a Lagoa dos Patos encontra o mar, onde se reproduz com sucesso. Assim como a garça-azul, a procriação era antes restrita a manguezais. Isso a mais de 600 quilômetros ao sul da última colônia de reprodução antes conhecida. Casos como esses são exemplos da dinâmica movimentação de espécies pelo globo.

O biólogo Paulo de Tarso Zuquim Antas lembra que espécies podem se distribuir com base na oferta de água e de alimentos, na existência de locais adequados à construção de ninhos, na variação da temperatura (influi na disponibilidade de comida) e em sua capacidade de movimentação.

Um dos episódios emblemáticos para o Brasil é o da garça-boiadeira (Bubulcus ibis), que tanta polêmica provocou em Fernando de Noronha, em 2005. Segundo ele, a espécie vem colonizando várias partes do globo desde 1790, aproximadamente. Passados cerca de dois séculos, é encontrada do Canadá ao sul da América, na Patagônia. “Ela encontrou um nicho vazio, uma casa vazia, aproveitando espaços de pastoreio oriundos da colonização. Também chegou a Abrolhos, mas lá não se estabeleceu”, contou Zuquim.

Também consultor da Fundação Pró-Natureza (Funatura) , o pesquisador puxa outros eventos da memória. Lembra do sabiá-do-barranco (Turdus leucomelas), ave sul-americana antes limitada ao topo da Região Sul e que nos últimos 15 anos aportou no Rio Grande do Sul e já é avistada no norte do Uruguai. Recorda do gavião-peneira (Elanus leucurus) e do gavião-de-rabo-branco, espécies que se alimentam de insetos e ratos e chegaram ao Rio Grande do Sul a partir da década de 1970, na carona da abertura de áreas de planalto para cultivo de monoculturas.

Exemplo extremo é o da lavadeira-mascarada (Fluvicola nengeta), pequeno parente do bem-te-vi que empreendeu uma jornada de expansão, da Caatinga até a Argentina, desde a década de 1950, passando por vários estados brasileiros. “Manter-se e expandir-se é positivo e é o ideal evolutivo de qualquer espécie, incluindo a nossa. É a tentativa de se manter eternamente, algo que ainda nenhuma espécie conseguiu”, comentou Zuquim.
   
Eles largaram na frente
Com bem menos espécies em suas listagens nacionais, mas com mais recursos e maior tradição em pesquisas, países como Alemanha e Inglaterra e porções da Escandinávia e da França mantêm bons estudos sobre a distribuição de espécies aladas. Com a ameaça do aquecimento global, outra variável deve fazer parte dessas análises e projeções. Os ingleses, por exemplo, avaliaram a expansão de aves para o norte do país em 1999, enquanto os Estados Unidos já têm um atlas projetando os impactos da alteração do clima sobre 150 espécies de pássaros, feito em 2004. Nessa projeção, a garça-azul e o socó-caranguejeiro tendem a ganhar território com temperaturas maiores.

No entanto, conforme o ornitólogo Zuquim Antas, o andar vagaroso das pesquisas nacionais sobre os efeitos climáticos na biodiversidade, ainda carentes de dinheiro e pessoal, não deve ter impactos significativos em políticas de conservação. Afinal, disse, “a movimentação e a expansão de espécies são naturais”, fazendo com que algumas desapareçam ou sobrepujem concorrentes por espaço ou alimentação. Não se pode esquecer, no entanto, da mão humana na destruição de ambientes importantes para a sobrevivência de aves e outras espécies. A saída não é nenhum segredo - a preservação dessas áreas.

Como explica Gianuca, da Furg, a maioria das aves ameaçadas de extinção no Brasil vive na reduzida e ameaçada Mata Atlântica. E essas espécies dependem completamente dos seus habitats, da floresta. “Devemos tomar cuidado ao falarmos sobre a possível mudança na área de ocorrência de espécies ameaçadas em função das mudanças climáticas. Mais estudos abordando essa questão são necessários. Entretanto, os esforços de conservação ainda devem ser direcionados para a preservação dos ecossistemas naturais”.
   
Outros atalhos:
O trabalho sobre a garça-azul pode ser baixado aqui.
Outro estudo, sobre a expansão do socó-caranguejeiro, pode ser obtido aqui.
Atlas de Efeitos Climáticos em 150 Espécies de Pássaros do Oeste Norte-Americano.

Fotógrafo João Paulo Ceglinski

Sugestão de leitura
Organizado pelo professor do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da USP Marcos Buckeridge e lançado no fim de 2008, Biologia & Mudanças Climáticas no Brasil reúne artigos de biólogos, climatologistas, agrônomos, jornalistas e até de um compositor. Responsável por um dos textos, o herpetólogo Célio Haddad, professor titular da Universidade Estadual Paulista (Unesp), avisa: “Estamos vivendo isso (aquecimento global) agora”. Segundo o pesquisador, temperaturas maiores poderão elevar a cobertura de nuvens em regiões montanhosas e o nível do mar no litoral. O resultado seria terrível para muitas espécies de anfíbios, por exemplo. “Montanhas no Sul e Sudeste perderiam matas nebulares e várias espécies de anfíbios. Com o aumento do nível do mar, poderiam ser destruídas espécies de baixada em ambientes costeiros. Elas não conseguiriam subir a pontos mais elevados”, alertou. Uma nova edição do livro está no forno, contou Buckeridge, incluindo capítulos sobre aves e clima em alteração.

(Por Aldem Bourscheit, OEco, 29/01/2009)


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