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mortandade de abelhas contaminação com agrotóxicos bayer
2008-09-26

A guerra não declarada entre apicultores e gigantes dos agrotóxicos na Europa teve mais um round semana passada. Na quinta-feira (18/09), o Ministério da Saúde da Itália suspendeu a licença de quatro substâncias (Clotianidina, Imidaclopride, Tiametoxam e Fipronil) presentes em inseticidas para plantações de milho, colza e girassol. Elas são apontadas pela Federação Italiana de Apicultura como responsáveis pela morte em massa de abelhas verificada no início do ano.

As três primeiras pertencem ao mesmo grupo químico. O dos neonicotinóides, originados da molécula de nicotina. Foram desenvolvidos na década de 70 e considerados uma revolução, pois são biodegradáveis e menos tóxicos que outros para indicações similares. Entre agricultores, se apresentam mais notoriamente como os inseticidas "Poncho", "Gaucho" e "Adante".

Fipronil é o princípio ativo de uma vasta gama de pesticidas usados contra formigas, cupins, pulgas e até baratas. Comercialmente é encontrado com o nome "Regent", "Termidor", "MaxForce", ou "Frontline", entre outros.

Os quatro têm grande importância para três dos maiores fabricantes de agrotóxicos do mundo, BASF (Fipronil), Syngenta (Tametoxam) e Bayer (Clotianidina e Imidaclopride). As empresas não informam o faturamento por produto, mas sabe-se que só o Gaucho, feito à base de Imidacloripride, é vendido em 120 países, rendendo 600 milhões de Euros/ano para a Bayer CropScience, braço agroquímico da holding. Mas o aspecto econômico parece não fazer parte do conjunto de fatos, contradições e omissões que justificaram a decisão das autoridades italianas.

Incidentes
Não se trata de novidade. Em maio, o Poncho, também da Bayer CropScience, mas tendo Clotianidina como princípio ativo, provocou o colapso de mais de 11 mil colméias em pelo menos dois estados no Sul da Alemanha, sendo "suspenso" imediatamente pelo governo. A fabricante bota a culpa nos agricultores, alegando "erro na aplicação".

Por ser um inseticida de "ação lenta", a Clotianidina tem um efeito nefasto sobre as comunidades de insetos. As abelhas, por exemplo, não morrem de imediato ao entrarem em contato com a substância. Os indivíduos intoxicados, quando conseguem retornar à colméia, contaminam o grupo, causando o colapso das comunidades.

Mesmo assim, pressionado pelo agrobusiness, e sob ameaça de perda da safra, o governo alemão reautorizou, em agosto, o inseticida para a lavoura de colza. "Colocaremos avisos no produto com instruções claras para aplicação. Ao mesmo tempo faremos experimentos técnicos para garantir a segurança e efetividade do produto", declara Dr. Hermann-Josef Baaken, "cabeça" de política corporativa e relações com a mídia (Head of Corporate Policy & Media Relations) da Bayer CropScience. Com esse argumento a empresa espera reautorizar o uso do Poncho para plantações de milho alemãs ainda no mês de outubro.

Dr. Baaken não nega que as abelhas tenham morrido por entrar em contato com o produto, mas insiste na tese do "incidente". "Na cultura de milho o Poncho é indicado para tratamento de sementes, sem contato direto com o meio ambiente, como em pulverizações. É a primeira vez que isso acontece", garante. O Poncho passou a ser usado no ano passado pelos subsidiados plantadores de milho, que há décadas não fazem rotação de culturas.

No início de setembro a Bayer CropScience lançou um comunicado oficial reafirmando a segurança da Clotianidina. "Todos os estudos de laboratório e em ambientes fechados confirmam claramente que a Clotianidina é segura para abelhas e pássaros quando usada para o tratamento de sementes", traz o comunicado. O texto ainda explica que no incidente na Alemanha "as sementes foram tratadas incorretamente", permitindo que "partículas de poeira contendo o ingrediente ativo chegassem ao ambiente". Além disso, o problema "apenas aconteceu porque o tempo extremamente seco, os ventos fortes e o tipo de equipamento utilizado pelos agricultores possibilitaram a contaminação".

Contradições
O press release da Bayer esquece de mencionar que a Clotianidina não é usada apenas para tratamento de sementes. No Brasil, por exemplo, ela é a base do Zellus SC, um inseticida da Sumitomo Chemical, que compartilha a patente do princípio ativo com a Bayer. Indicado para combater o pulgão-do-algodoeiro, ele é pulverizado nas folhas dessa cultura. E o Zellus SC não é exceção. Segundo o Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários (Agrofit) do Ministério da Agricultura há outros com a mesma forma de aplicação em diferentes plantações.

Numa perspectiva mais abrangente, o fato é que acidentes, ou erros, com as quatro substâncias acontecem há muito mais tempo. Mesmo nos países com os melhores sistemas de controle fitosanitário do mundo. No início de 2004, o Gaucho, irmão mais velho do Poncho, e o Regent (Fipronil) da BASF foram proibidos na França acusados de causar uma queda de 60% na produção de mel. Os dois continuam proibidos lá, mas parece que quase ninguém lembra disso.

Em nível mundial, há anos estudos demonstram que há redução na população de abelhas em todo o mundo, e os poucos cientistas debruçados sobre o problema afirmam que ele está associado à agricultura industrial, especificamente ao uso intensivo de agrotóxicos.

Segurança ambiental
A "Coalizão contra os Perigos da Bayer" (CBG), uma rede de ativistas que há 30 anos monitora os "acidentes" envolvendo a empresa, está entre as que não esquecem, e não deixam esquecer. "O fenômeno também está acontecendo nos Estados Unidos, onde a Bayer luta para manter no mercado um dos seus principais produtos", afirma Philipp Mimkes, da CBG na Alemanha. Ele se indigna ao ser confrontado com a explicação da companhia para o problema, como que obrigado a dizer o óbvio: inseticidas matam insetos. "Você sempre tem resíduos de agrotóxicos nas áreas em que eles foram usados. Para esse grupo específico, há estudos mostrando que após quatro ou cinco anos eles ainda estão presentes. Não há como garantir a segurança ambiental do uso desses venenos", completa Mimkes.

A CBG, inclusive, está processando o presidente da Bayer AG, Werner Wenning, por abuso do poder econômico e negligência. "Para liberar esses agrotóxicos a empresa apresentou estudos atribuindo baixa toxidade para abelhas, e mesmo depois de comprovado o contrário, continua utilizando seu poder para evitar sua proibição", acusa o advogado da ONG, Harro Schultze. A Bayer AG é um gigante químico e farmacêutico mundial. Possui 106 mil funcionários nos cinco continentes, e com um capital de 42 bilhões de Euros.

Após a morte das abelhas em áreas próximas a plantações de milho, o Instituto Julius-Kühn, uma espécie de Embrapa da Alemanha, analisou as evidências e confirmou que a causa da morte das abelhas foi a Clotianidina encontrada no Poncho.

Desinformação
No Brasil, onde a Bayer CropScience é líder no mercado de inseticidas (44%), a mortandade de abelhas intriga mais pelo silêncio do que pelo barulho causado. "Não há motivos para alarmar os produtores brasileiros, pois o que ocorreu na Alemanha não está relacionado ao produto e sim a uma série de fatores", responde a coordenação de comunicação da Bayer CropScience em São Paulo.

A posição das autoridades ambientais brasileiras parece corroborar com a versão da empresa. "Não temos nenhuma denúncia sobre mortandade de abelhas relacionadas a esses produtos", informa a engenheira agrônoma Marisa Zerbetto, da Coordenação Geral de Avaliação e Controle de Substâncias Químicas do Ibama. Ela explica que as denúncias, assim como a verificação dos casos, são responsabilidade das superintendências estaduais do órgão. E esse detalhe ajuda a explicar a ficha limpa dos inseticidas em solo tupiniquim.

Ainda nos primeiros dias de setembro mais uma mortandade de abelhas foi registrada no Norte do Rio Grande do Sul. Também não foi a primeira vez. Como em ocasiões anteriores, o uso de formicida era o principal suspeito de causar o problema. A Emater/RS, que atendeu a emergência, informou não poder assegurar o motivo da morte das abelhas. A instituição não dispõe de equipamentos e técnicos para esse tipo de análise. Sem falar, que pela lei, esse papel é da superintendência regional do Ibama.

Mas se depender da estrutura do Ibama no RS esse tipo de incidente jamais será esclarecido. "Em algumas regiões, como na fronteira Oeste, temos apenas um biólogo para atender a todos os tipos de denúncia. Sem falar, que para casos envolvendo agrotóxicos as análises devem ser feitas em Brasília, sendo necessária, muitas vezes, a vinda de um técnico de lá", justifica um funcionário da superintendência gaúcha.

Omissão
Em paralelo à precária estrutura, faltam informações sobre os perigos desses químicos para insetos benéficos e pássaros. São produtos usados em uma vasta gama de plantações, e com diversas formas de aplicação. A Imidacloripride, por exemplo, é indicada no site do Ministério da Agricultura para:
- Tratamento de sementes - plantações de algodão, amendoim, arroz, aveia, cevada, feijão, milho, soja e trigo.
- Pulverização foliar - plantações de abacaxi, abóbora, abobrinha, alface, algodão, alho, almeirão, batata, berinjela, brócolis, cebola, chicória, citros, couve, couve-flor, crisântemo, feijão, fumo, gérbera, jiló, melancia, melão, pepino, pimentão, poinsétia, repolho, soja e tomate.
- Tratamento do solo - plantações de cana-de-açúcar, café, fumo e uva.
- Aplicação no tronco de citros.
- Aplicação no controle de cupins, conforme aprovação em rótulo e bula.

Só alguns inseticidas feitos a partir da Imidacloripride, Clotianidina, Tiametoxam ou Fipronil trazem advertências sobre a toxidade para abelhas. No Agrofit uma das exceções é o Adante, feito à base de Tiametoxam. "Este produto é ALTAMENTE TÓXICO para abelhas, podendo atingir outros insetos benéficos. Não aplique o produto no período de maior visitação das abelhas", traz o campo "precauções de uso" do produto na página no Sistema. Ele é produzido e comercializado pela Syngenta, sendo uma das armas contra inimigos mortais das plantações de Soja, tais como a ferrugem asiática e a mosca branca.

De maneira geral, as quatro substâncias compartilham um receituário padrão. Indicações, precauções, advertências, acidentes e embalagens, além dos alertas de praxe. Coisa do tipo: "Preserve a Natureza. Não utilize equipamento com vazamento. Não aplique o produto na presença de ventos fortes ou nas horas mais quentes". Curiosamente, nenhuma das variantes do Gaucho, do Poncho, ou do Regent presentes no Agrofit trazem advertências sobre a toxidade para abelhas.

Links informativos
- Compêndio de notícias sobre a mortandade de abelhas
- Sobre os efeitos da Clotianidina / Poncho (em inglês)
- Alemanha suspende autorização de agrotóxicos acusados de matarem abelhas (em alemão)
- Clotianidina é altamente tóxica para abelhas e polinizadores (em inglês)
- Corelações entre a morte de abelhas nos EUA e na Alemanha (em inglês)
- Presidente da Bayer é processado pela morte de abelhas (em inglês)

(Por Mariano Senna*, Ambiente JÁ, 24/09/2008)
*Colaborou Carlos Matsubara


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