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extinção de espécies impactos mudança climática
2007-11-26
As mudanças do clima estão levando milhares de espécies de animais e plantas para novos ambientes. Agora, os biólogos estão debatendo se não faria sentido ajudá-las a fazer a mudança. Pescadores indianos e bengaleses apelam para Bonobibi, deusa da floresta, antes de saírem para os mangues; eles também enviam suas preces aos céus para acalmar Daksin Ray, o rei tigre. Nenhuma prece, entretanto, pôde deter o tigre de Bengala. Pessoas são mortas pelos tigres quase semanalmente nas Sundarbans, maior floresta de mangue do mundo, localizada no delta dos rios Ganges e Brahmaputra. A região é um dos últimos refúgios para os tigres de Bengala. Apesar de ainda serem os mestres da floresta, um gás pode se tornar seu pior inimigo. O gás é chamado de dióxido de carbono e está aquecendo a terra.

As Sundarbans são um dos primeiros ecossistemas na Terra que poderão ser destruídos pelos efeitos da mudança climática. De acordo com um relatório da Organização Cultural, Científica e Educacional das Nações Unidas (Unesco), três quartos da região, considerada Patrimônio Mundial, podem estar submersos até o final do século. Um aumento de apenas 45 cm do nível do mar levaria o tigre de Bengala, também chamado localmente de "comedor de homens", a se tornar uma das primeiras vítimas da mudança climática. E se as previsões dos cientistas estiverem corretas, não será a última.


De acordo com um relatório emitido em abril pelo Conselho Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC), entre 20 a 30% de todas as espécies enfrentariam um risco "elevado" de extinção se a temperatura média global aumentar mais de 1,5 a 2,5 graus Celsius. Um estudo publicado na "Nature" concluiu que, até 2050, dois terços de todos os animais e plantas poderão ser forçados a encontrarem novos habitats para sobreviverem. Com essas previsões terríveis, uma questão altamente debatida entre biólogos é se o homem deve dar uma mão, transferindo as espécies quando seus habitat se tornam quentes demais. Ou os animais e plantas conseguirão salvar-se sozinhos?

"Mudanças no clima são normais para animais e plantas; sempre tiveram que se ajustar a elas", argumenta o biólogo do Zoológico Estadual de Munique, Josef Reichholf. Outros, porém, discordam. "A mudança climática é uma das maiores ameaças à diversidade de espécies na Terra", diz o professor de engenharia florestal da Universidade de Toronto, Jay Malcom. Mark Schwartz da Universidade da Califórnia em Davis concorda: "A magnitude das extinções provocadas pelo clima requer ação imediata".

Schwartz e uma série de colegas publicaram um estudo que faz uma pergunta radical: se certos animais e plantas são incapazes de fugir das temperaturas crescentes, devemos ajudá-los? "Uma solução óbvia", diz Schwartz, "é ajudar as espécies em risco a mudarem-se para novos ambientes onde possam prosperar." A verdade é que os animais e plantas já estão reagindo ao aquecimento global, na maior parte migrando para o Norte. Borboletas e morcegos estão se movendo na direção dos pólos. A libélula vermelha e o louva-a-deus estão se tornando prevalentes no Sul da Alemanha. Águias marinhas e andorinhas dos beirais começaram a passar o inverno no Mediterrâneo, ao invés da África.

Essas mudanças não são necessariamente ruins. "Muitas espécies se beneficiam da mudança climática", diz Reichholf. Por exemplo, grous e falcões carecas, ambos considerados espécies ameaçadas, encontrariam melhores condições de vida em uma Europa mais quente. Pragas como o besouro estão se sentindo cada vez mais confortáveis em latitudes ao Norte. Alces e porcos do mato estão expandindo seu alcance na medida em que seus alimentos favoritos se tornam mais abundantes.

Os biólogos que pedem ação rápida e decisiva, entretanto, estão preocupados com espécies impedidas de se mudar para novos habitats. Se o clima mudar tão rapidamente quanto muitos cientistas prevêem, essas espécies dificilmente terão tempo suficiente para fazer o longo caminho para climas mais favoráveis. Em alguns casos, serão forçadas a negociar trilhas pedregosas e difíceis. A Terra não tem a mesma paisagem que apresentava no final da última era do gelo. Cidades, campos cultivados e estradas dominam o território hoje.

Ultrapassar esses obstáculos é impossível para muitas espécies. "A fragmentação de nossas paisagens impede muitos animais e plantas de se moverem livremente. Uma única auto-estrada pode ser suficiente para deter algumas borboletas", diz Volker Hammen do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental na cidade de Halle, do leste alemão.

Hammen faz parte de um projeto internacional chamado "Avaliando Riscos de Grande Escala para a Biodiversidade Usando Métodos Testados". Ele e outros pesquisadores envolvidos no projeto advertem que a mudança climática pode ameaçar mais da metade de todas as espécies vegetais européias. Por exemplo, eles prevêem um desaparecimento drástico de espécies nativas dos Alpes e dos Pireneus. Fugindo das temperaturas crescentes, plantas como a Saxifraga oppositifolia já estão lutando para atingir maiores altitudes. Em algum momento, porém, alcançarão o pico e não poderão migrar mais. Entre as vítimas potenciais estão a Ranunculus glacialis e a Soldanella alpina.

As pererecas douradas da América Latina são outro exemplo. Dois terços dos anfíbios coloridos já foram extintos nos últimos 20 a 30 anos, vítimas de um fungo. A mudança climática acelera a contaminação pois dá melhores condições de vida para o fungo mortífero nas florestas úmidas das montanhas da Costa Rica e Panamá, onde as temperaturas médias à noite estão aumentado.

"Espécies raras que moram em habitats frágeis ou extremos já estão sendo afetadas", diz Camille Parmesan, ecologista da Universidade de Texas, em Austin. Parmesan, que avaliou centenas de estudos, não acredita que as espécies pode escapar de habitats quentes simplesmente por adaptação. "Leva um milhão de anos para uma espécie desenvolver algo novo que permita que viva em um ambiente completamente diferente", diz Parmesan. O problema, entretanto, é que elas têm apenas umas "centenas de anos" para completar o processo.

O que pode ser feito? As recomendações dos biólogos variam desde não fazer nada até tomar medidas decisivas. O exemplo dos ursos polares ilustra o dilema. Os peludos habitantes do Ártico tornaram-se ícones de mudança climática. As imagens amplamente publicadas na mídia das criaturas gigantes empoleiradas em minúsculas pedras de gelo sugere que a situação é urgente. Mas a realidade é uma história inteiramente diferente. Sete das 12 populações de ursos polares estudadas até hoje estão estáveis ou até crescendo.

Isso deixou os biólogos intrigados. Será que os ursos polares realmente precisam de gelo para sobreviver? Ou podem imitar os ursos pardos e caçar em terra? Felizmente, ninguém até agora sugeriu uma operação de transferência aérea em massa dos ursos polares do Ártico para a Antártica, onde ainda há gelo em abundância. Os predadores presumivelmente cometeriam um banho de sangue entre as populações de pingüins que procriam no continente do Sul.

O reassentamento, ainda assim, está sendo discutido como opção viável para outras espécies. A conífera Torreya taxifolia da Flórida, por exemplo, mal sobrevive ao longo das margens do rio Apalachichola. Apesar de ainda haver cerca de 1.000 exemplares, as árvores enfraquecidas não estão mais produzindo sementes. "A torreya está presa no vale do rio", diz Mark Schwartz. A árvore, porém, tem seus defensores. Um grupo chamado Guardiões da Torreya quer ver as sementes de jardins botânicos plantadas em áreas onde a espécie atualmente não existe. "Por que esperar?", pergunta Paul Martin, professor de geociências da Universidade do Arizona.

No final, o reassentamento pode ser a única opção para proteger a espécie de extinção no ambiente selvagem. Além disso, o programa de transferência da torreya pode servir como teste das vantagens e desvantagens de um método que pode trazer "uma nova era de conservação radical", diz Martin.

A idéia de reassentar deliberadamente animais e plantas em novos habitats vai contra as regras de proteção de espécies. Os biólogos normalmente estremecem ao pensar nas espécies sendo acidentalmente ou irresponsavelmente introduzidas em habitat estranhos. Os sapos-gigantes, por exemplo, foram originalmente importados do Havaí para plantações de cana-de-açúcar australianas para dizimar os insetos. Em vez disso, os sapos vorazes embarcaram em uma marcha destrutiva pela vida selvagem australiana.

São exemplos como este que levam muitos cientistas a recomendarem que, em vez de reassentar refugiados da mudança climática, devemos abrir caminho para que possam migrar sozinhos. O agrônomo Hammen sugere desenvolver corredores para animais selvagens. O Nature Conservancy, grupo de conservação americano, está tentando estabelecer uma área alta protegida na Província de Yunnan, na China. As florestas alpinas raramente crescem em altitudes mais baixas; se as temperaturas mais quentes levarem-nas para regiões mais altas, as áreas protegidas podem servir para seu restabelecimento.

Até Schwartz admite: "A migração assistida é apenas um último recurso". Ele também adverte contra "ambientalistas caubóis", que já estão "movendo espécies simplesmente porque acham que é boa idéia." "Será um desastre se esperarmos as espécies começarem a se extinguir, entrarmos em pânico e começarmos a transferí-las. Precisamos de conservação agora, porque provavelmente levará uma década para chegar a algum consenso", diz Jason McLachlan, da Universidade de Notre Dame, em Indiana.

De fato, os cientistas ainda não conseguem concordar em questões fundamentais. "O debate sobre a mudança climática distorce completamente nossa perspectiva", diz Josef Reichholf. De acordo com ele, o aquecimento global não é um fator chave na extinção de espécies. "O maior eliminador de espécies é a agricultura em escala industrial", diz. Por esta razão, Reichholf questiona se "a mudança climática pode levar algo a ser extinto". Ele pode estar certo, ao menos no caso do tigre de Bengala, nas Sundarbans. Cerca de metade da cobertura florestal da região, lar de mais de 4 milhões de pessoas hoje, foi eliminada nos últimos 20 anos. Mesmo sem o aquecimento global, o tigre está perdendo cobertura.

(Por Philip Bethge, Der Spiegel, tradução de Deborah Weinberg, 24/11/2007)


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